Nos últimos 30 anos percebemos um grande movimento de arte independente, seja nos ramos da música, da moda, do teatro, e outros setores da indústria cultural. O objetivo deste trabalho é analisar o fenômeno da cena independente de música surgida nos anos de 1990 e os porquês de sua força e tamanho. Para isso faremos um panorama histórico da indústria musical tomando como base os textos de Yúdice (2004), Adorno & Horkheimer (2002) e De Marchi (2006) e na minha experiência profissional e pessoal de integrante e administradora de uma banda independente e participante do coletivo de bandas independentes Arariboia Rock.
As pessoas sempre sentirem a necessidade de se expressar. É tanto que as formas artísticas diversas, quaisquer que sejam, são de fato muito antigas e atravessam as inúmeras culturas mundiais. Porém percebemos que essa expressão por um bom tempo esteve dividida, pelo menos na história da Europa, em alta cultura, dos cultos e estudiosos, e baixa cultura, do povo (Adorno, 2002). A partir do momento em que a burguesia ascendeu ao poder com a revolução industrial e padronização e produção de tecnologias em série, pode-se criar uma indústria cultural consumível. Por exemplo, a invenção da imprensa no século XVII, por Gutenberg, levou ao fenômeno do romance do século XIX, um produto comercializado e de aspecto cultural, sendo reproduzido em larga escala e consumido em massa. Isso levou à junção da alta cultura com a baixa. Isto é, o povo passou a ter acesso à educação artística e musical por meio das escolas e conservatórios que ensinavam a alta cultura, e os artistas da alta cultura viram-se inspirados com a cultura popular e começaram a incorporar aspectos da cultura popular à sua arte. Essa junção de uma coisa com a outra, por ambos os lados, inserido no contexto do capitalismo, abriu espaço para a música popular (de natureza erudita ou não) comercializada, seja através de concertos abertos ao público por meio de compra de ingressos, ou posteriormente com a gravação de discos e a indústria fonográfica. A burguesia, através da tomada do poder com a república e, com isso, a ascensão do modo de vida burguês, com suas ferramentas e modos de produção, contribuiu para a criação do produto cultural. Com a consolidação do capitalismo essa produção se sujeitou às necessidades do mercado.
Por boa parte do século XX, principalmente nos Estados Unidos, a indústria musical esteve nas mãos das gravadoras. Desde o processo de “caçar talentos”, arranjos, produção artística, empresarial e executiva, gravação, distribuição, publicidade, assessoria, relações públicas, etc., tudo estava sob controle das gravadoras. Esse controle sobre a obra artística era tanta que o artista ou o compositor em si pouco tinha direito sobre sua própria obra, isso devido ao estabelecimento das leis de propriedade intelectual (Yúdice, 2004) e até de sua imagem e comportamento perante a imprensa. O artista passou a ser um fornecedor de conteúdo e o resto do trabalho artístico era desenvolvido em linha de produção.
Para captar novos ouvintes e consumidores de música, criou-se o mito do artista-celebridade. Com os recursos da imprensa e das relações públicas, criaram-se muitas celebridades musicais que mais se apoiavam na sua imagem do que na expressão musical. A beleza física e as roupas utilizadas se tornaram partes integrantes do sistema fonográfico. O público precisava se identificar com o artista em nível mais pessoal do que apenas musical. Essa popularização da música e sensualização dos artistas fez com que o público almejasse alcançar e fazer parte desse sucesso. Criaram-se as tribos, em que os jovens se vestiam e se comportavam de acordo com a imagem dos seus ídolos. Nos anos de 1950, o rock ‘n’ roll surgiu com essa proposta bastante exacerbada. A imagem da rebeldia muito apelava aos jovens e logo após seu surgimento, o modo de vestir e comportar dos jovens mudaria radicalmente.
A produção em escala industrial de instrumentos musicais e equipamentos de palco barateou esses produtos, fazendo-os cada vez mais disponíveis para o público. Isso fez com que surgisse uma nova categoria, a dos músicos amadores, ou seja, aqueles que aprendiam a tocar as músicas que ouviam nos discos e nas rádios e criavam seus próprios conjuntos musicais para tocar esses estilos pop. O sonho desse músico era ser descoberto por uma grande gravadora e se tornar um rock star. O objetivo não era mais só o fazer musical, mas todo o estilo de vida propagado pela publicidade e assessoria de imagem dos artistas contratados.
Na era analógica, a indústria musical ainda obtinha exclusividade das tecnologias de gravação de som, e os equipamentos que eram disponíveis para o consumidor comum ainda tinham o custo elevado e pouco práticos. A produção independente estava restrita a artistas que de alguma forma conseguissem capital o bastante para isso, ou recebiam algum tipo de financiamento. Durante os anos de 1970, surgiu nos Estados Unidos e na Europa o movimento punk, que propunha acabar com a hegemonia da indústria cultural e ter direito de ser produzido independentemente de sua técnica ou imagem. Essa cultura punk acabou por se popularizar e ser tornar mais um segmento da indústria com o lançamento das bandas principais do movimento por grandes gravadoras multinacionais. Esse fato foi um divisor de águas para os músicos amadores, ou eles se acomodavam e se encaixavam dentro dos padrões punks reestabelecidos e reinventados pela indústria, ou continuavam independentes. Nessa época, as tecnologias de gravação ainda eram acessíveis à população, então o artista que continuava independente não tinha como ter muita visibilidade e nem como registrar sua obra de forma satisfatória.
Porém, a semente havia sido plantada e nos anos de 1980, durante a abertura do regime militar e depois do seu fim, surgiu uma forte cena independente no Brasil com engajamento político. Essas bandas acabavam por serem assinadas por grandes gravadoras e se tornaram grandes sucessos, atendendo a esse mercado de jovens rebeldes.
Nos anos de 1990, com o advento da era digital, com o CD e sua compatibilidade com o PC, a música começou a ser propagada de forma informal pela internet. A invenção do MP3 facilitou a transferência de arquivos de música e houve uma grande crise com o modelo de gravadoras. O CD passou a vender muito menos e as gravadoras cessaram um grande número de contratos e parou de financiar projetos mais arriscados. Isso levou a um grande incentivo à produção independente. Os equipamentos de gravação digital barateavam cada vez mais e isso possibilitou a abertura de pequenas gravadoras independentes (De Marchi, 2006). Essa facilidade de equipamento e a cultura do do-it-yourself proveniente do movimento punk dos anos de 1970 foi um casamento perfeito para o surgimento de uma cultura musical digital que nos anos 2000 ganharia força total.
De acordo com De Marchi (2006), os artistas, insatisfeitos com a aglomeração das gravadoras transnacionais, começaram a investir em comprar equipamento de gravação digital e produzir suas próprias obras. À medida que esses equipamentos foram barateando, aos poucos o consumidor comum começou a adquiri-los. Neste começo de século, as bandas já estão se produzindo, até sem selo nem gravadora. A quantidade de produções independentes aumentou de forma drástica e a publicação na internet serve como veículo propulsor. Diz-se que essa era digital é uma revolução na expressão musical.
A problemática trazida neste texto não é em relação à possibilidade de se gravar e divulgar música na internet. O questionamento é se essa forma de divulgação é de fato um “caminho para o sucesso”. Parece que estamos em processo de transição entre uma era de músico-celebridade, em que as gravadoras detinham os direitos sobre a obra e o indivíduo músico e esta era de total liberdade. Está surgindo um mercado de compra de status de ídolo. As bandas, levadas pelo glamour de “ter um CD”, ter um número de acessos no seu site X, e ter o instrumento musical assinado por seu ídolo, na verdade, se tornaram consumidores do mito do ídolo musical e estão consumindo os produtos lançados pelas empresas de equipamento de gravação (geralmente sub-marcas com fabricação na China). Essa idéia propagada de que o sucesso se faz com o próprio punho e que a escalada ao sucesso é de responsabilidade do artista (uma extensão do individualismo do do-it-yourself) com a venda de equipamentos de palco e gravação, gera um mercado consumidor bastante rentável para essas empresas. Esse mito da celebridade é tão forte, que os artistas hoje se sujeitam a participarem de concursos e festivais que prometem sucesso e projeção das bandas, mas cobram taxas absurdas dos músicos e exigem que levem números irreais de público para o evento e que a banda faça o trabalho de divulgação do evento. Porém, essa divulgação feita por redes sociais de relacionamento e site especializados, em nada contribuem para o tão sonhado sucesso. O controle da grande mídia e das gravadoras ainda é hegemônico e as relações de poder ainda continuam.
No entanto, existem os artistas mais conscientes e os coletivos de bandas que ao invés de tentar emular ou fazer parte da grande indústria cultural e midiática, lutam para reordenar essa indústria. Existe o movimento de se aliar essas pequenas gravadoras independentes e os artistas para criarem seus próprios paradigmas e formas de se auto-sustentar, sem ceder direitos autorias e nem à ilusão de se tornar ídolo pela internet. Os coletivos de bandas independentes estão atuando cada vez mais para agregar as bandas e os músicos para repensarem esse papel de artista comumente propagado pela mídia. O artista independente precisa se informar, e acima de tudo ser empreendedor de sua banda, para não cair em armadilhas como os tais festivais de música. A contracultura está em recriar o papel do artista musical e na reestruturação da indústria musical para se adequar à era digital.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DE MARCHI, Leonardo . Indústria Fonográfica e a Nova Produção Independente: o Futuro da Música Brasileira?. Comunicação, Mídia e Consumo (São Paulo) , v. 03, p. 167-182, 2006.
HORKHEIMER, Max & ADORNO, Theodor. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas. Pp. 169 a 214. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 364p.
YÚDICE, George. A conveniência da cultura: usos da cultura da era global. Editora UFMG, Belo Horizonte, 2004.